sexta-feira, 21 de outubro de 2011

sobre a farsa da volta das bandeiras

Um clube de futebol tem, tradicionalmente, três símbolos sagrados: o distintivo (ou escudo), o uniforme e a bandeira.

O distintivo, aquele carregado junto ao peito, é a assinatura do clube. Tudo deve levar essa marca, que define uma pessoa ou objeto como pertencente ao clube.

O uniforme é a armadura, o manto sagrado, a indumentária com a qual os iguais se reconhecem na multidão.

E a bandeira?

A bandeira é a expressão viva e em movimento do amor ao clube, sem tamanho ou formato definido, onde o portador dessa bandeira exibe a intensidade do seu sentimento.

Infelizmente, no estado de São Paulo, este símbolo vibrante e contagiante é proibido nos estádios, pois numa bela manhã de domingo, os responsáveis pelo nosso futebol acharam seguro fazer uma final de campeonato entre dois rivais com entrada gratuita em um estádio cheio de materiais de construção nas arquibancadas. O resultado, claro, foi uma tragédia que até minha filha de 6 anos seria capaz de prever: um torcedor morto a pauladas e vários feridos. E o Poder Público, perfeito e indefectível, tinha que responsabilizar alguém pelo ocorrido. De preferência alguém que não pudesse se defender e ao mesmo tempo, justificasse os fatos.

Como o rapaz foi morto a pauladas, encontraram nos mastros das bandeiras a desculpa perfeita.

E passados mais de 15 anos (a proibição ocorreu em 1995), o Governador Geraldo Alckmin se recusou a corrigir esta sandice, vetando o projeto que devolveria a alegria aos nossos estádios.

Todos os lugares do Brasil permitem o acesso das bandeiras com mastros aos estádios. Será que elas são feitas de material diferente das bandeiras paulistas?

E de tempos em tempos somos obrigados a ouvir nas transmissões que “os cariocas é que sabem fazer festa no estádio!” ou “Olha como o Mineirão está lindo!”.

Quantas pessoas morrem por ano no Brasil vítimas de “bandeiradas”? Bandeiras sozinhas saem andando por aí, agredindo pessoas nas arquibancadas?

Esta característica brasileira do proibicionismo é um dos maiores entraves para a evolução do nosso povo. Somos proibidos de fazer nossas escolhas: de comer um sanduíche de pernil duvidoso, de tomar uma cerveja quente e aguada no estádio, de fumar em lugar fechado.

Imagina um pai proibindo um filho de aprender a escrever porque usou o lápis pra riscar a parede da sala?

De repente eleger a Super Nanny pra presidente seria melhor, já que em vez do Estado cumprir seu papel regulador e mediador das relações sociais, prefere ser babá do cidadão.

Quem ofende, agride, fere ou mata é o ser humano, não é a bandeira, a pedra, o álcool, o carro ou a bala. O problema em questão é o ser humano, que deve ser educado. Ou proibido.

Leandro Bergamin é Corinthiano e colaborou com este texto para a discussão sobre a volta das bandeiras ao estádio!





NOTA DO BLOG

afora a muito pertinente questão levantada pelo texto acima, há que se discutir, e muito, a idoneidade dos entes governamentais envolvidos

notem: pouco tempo atrás, o ministério dos esportes empurrou, via conatorg, às torcidas organizadas, um TAC que obrigava todos ao fiel cumprimento do estatuto do torcedor, sob pena de banimento por prazo indeterminado

esse ajustamento de conduta, dentre outras coisas, nos obrigará, torcedores que somos, ao cadastramento biométrico, o que é o mesmo que chamar todos os torcedores de criminosos em potencial

a contrapartida oferecida às torcidas, e vendida mentirosamente ao torcedor comum sob o nome de TAC das bandeiras, era a volta dos mastros aos estádios, o que, quando do estelionato governamental, contou com apoio do ministério, que defendia a festa, e do MP, que afirmava ter um plano de controle e monitoramento, limitando a quantidade e registrando os indivíduos responsáveis

ocorre que, assinado o TAC, houve o veto governamental, sem que o MP ou o Ministério apresentassem seu posicionamento ou intercedessem posteriormente, tentando evitar que se consumasse esse absurdo, que nada mais reflete do que a preguiça do Estado em exercer suas funções fiscalizadoras

se ainda há medida, acredita o blog que cabe à conatorg, representante das torcidas organizadas, que eram as pessoas jurídicas que teriam de volta o direito às bandeiras, questionar publicamente os órgãos em questão para que façam, ao menos, um pronunciamento de discordância ao governador e o isolem nesse posicionamento preguiçoso e despótico

até mesmo porque estamos cheios de políticos e juristas omissos, presentes apenas em ocasiões eleitoreiras

Um comentário:

  1. Tocou num ponto interessante: por que raios os maiores interessados estão caladinhos sobre o assunto? Aliás, há tempos defendo uma postura menos passiva das organizadas, pois nunca houve contrapartida nenhuma. É também uma forma de calar e alienar política e socialmente uma força importante de mobilização popular.

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