sexta-feira, 29 de julho de 2011

sobre violência no esporte e cidadania

Neste momento, muito se fala da atitude do goleiro do Sport, que agrediu de forma despropositada um atleta adversário no jogo de ontem entre seu time e o Vasco, pela Taça BH de Juniores.

“é um animal”
“é um monstro”
“é um covarde”

E, na boca do povo, o rapaz também já foi julgado e condenado. Faltam só os algozes para lhe cumprirem a pena.

“tem que ser banido”
“tem que ser preso”
“tem que tomar muita porrada”

Mas, no país do futebol que celebra um atacante chamado de “animal” (Edmundo), outro de “gladiador” (Kléber), um zagueiro de “monstro” (Thiago Silva), e cuja imprensa noticia “duelos” e “batalhas” ao invés de partidas, atiremos pedras e mais pedras na Geni, o pobre do rapaz que cometeu a barbaridade que vira assunto da semana.

Quando se olha para a seleção uruguaia, legítima campeã da Copa América e se lhe celebra a entrega, o sentimento de participação, a simbiose entre time e sua torcida, volta a discussão do trabalho do técnico. Segundo relatos (como o de Lúcio de Castro, já citado por você), há um trabalho intenso, que começa na base, tratando não somente as valências técnicas, táticas e fisiológicas dos atletas, mas também as suas valências humanas – há um forte acompanhamento psico-sócio-educacional para todos os jovens atletas, com a preocupação de formá-los como cidadãos atletas. E não somente como atletas que, por um mero acaso, também precisam ser cidadãos quando estão fora do campo.

País hipócrita este nosso, que crucifica o rapaz. Vamos, crucifiquemos o garoto, atiremos pedras, façamos justiça ao agredido com lapidação, a terrível morte por apedrejamento, ainda usada em alguns países e tão chocante e cruel para os nossos padrões ocidentais.

Nossa indigência intelectual começa, por mais que isto possa parecer pueril, nos apelidos dos jogadores. Não há hoje, desfilando pelos gramados, uma “Enciclopédia do Futebol”, um “Príncipe Etíope”, “Pequeno Polegar”, “Anjo de pernas tortas”, “Fio de esperança”, “O gerente” disputanto aguerridas contendas.

Façamos um exercício prático. Pegue-se declarações de Wlamir Marques (que tem toda a cara de “Sir Wlamir Marques”), Tostão, Pepe, Djalma Santos, e compare-se estas declarações com atletas mais jovens, de qualquer modalidade.

Nossa cultura esportiva recente celebra os guerreiros, gladiadores, matadores, animais, em cruentas batalhas e duelos.

Nosso esporte não tem, salvo raríssimas exceções, NENHUMA, absolutamente NENHUMA preocupação com a formação do cidadão. Forma-se o atleta. O pé de obra barato que se valoriza e enche os bolsos de meia dúzia de espertos aproveitadores.

Somos tão indignos, que preferimos fechar os olhos para as nossas falidas e famintas Forças Armadas, que dispensam recrutas para que não se lhes precise oferecer alimentação adequada no dia-a-dia. No nojento vale-tudo do esporte, entretanto, contrata-se sargentos de aluguel para disputar jogos militares e colocar o “Brasil-sil-sil” no alto do pódio, com jogos nojentos e desiguais de profissionais contra amadores.

Não, nossas Forças Armadas não se preocupam em formar cidadãos. Nossos soldados são, muitas vezes, incapazes de treinar suas obrigações militares por absoluta falência de seus equipamentos.

Mas, surpresa, o Brasil-sil-sil é uma potência do esporte. Tudo muito simples: contrate-se meia dúzia de atletas de segundo escalão, que se vendem por quaisquer dez cruzeiros para ganhar uma medalha qualquer, competindo contra “gordinhos” e “baixinhos”, depois mostrando uma vibração fajuta, que é adulada por uma parte igualmente corrompida e descompromissada da mídia.

Nossas paupérrimas forças armadas não se preocupam em investir na prática esportiva para os seus quadros. A prática esportiva que cultiva valores de comprometimento, treino, disciplina, respeito, reconhecimento de limites e fraquezas, de trabalho para superar fraquezas e limites. O Esporte, com E maiúsculo, é evento gerador e catalisador de cidadania. Nossas forças armadas não querem cidadania. Querem continuar encasteladas em seus mundinhos encantados em que nada acontece. Aliás, em que se ganha meia dúzia de medalhas fajutas, mas não se ganha respeito.

Elas são um reflexo exato de nossa comunidade esportiva (pelo menos da sua grande maioria), que quer resultados a qualquer custo.

Nossa mídia, que (em sua grande maioria) adula as “batalhas” e os “duelos” e que saúda os “guerreiros” e “matadores”, aplaude e abana seus nojentos rabinhos caninos para os nossos atletas fardados.

Nossos torcedores, que querem “raça”, “garra” e “disposição” aplaudem.

Nossos atletas, que querem mais louras, morenas, mulatas, carros e aviões, nesta vidinha de celebridades instantâneas. Nossos atletas que perdem vergonhosamente uma competição e aparecem na mídia com suas belas namoradas, jogando seus belos videogames, pilotanto seus belos carrões. Nossos atletas que não sabem (e pior, não querem saber) sequer o significado do hino que cantam.

E, eventualmente, acabam pegos em deslizes. Uma cadeia por falta de pensão alimentícia… uma outra cadeinha por um acidente de carro. Até uma cadeiona por suspeita de assassinato. Muitos envolvidos com traficantes, amigos dos envolvidos com casas de prostituição, parceiros dos banqueiros de jogo do bicho e contraventores em geral. Ou um dopingzinho, que dependendo das conexões inconfessáveis do autor, também não tem nenhuma influência.

Mas o goleiro do Sport… ah o goleiro do Sport. Esse aí tem mais é que se ferrar mesmo.





o original está aqui: http://blogs.lancenet.com.br/andrekfouri/2011/07/26/esporte-e-cidadania/

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