segunda-feira, 29 de novembro de 2010

NÃO ENTREGUEM OS PONTOS CORRIDOS

* texto retirado do excelente blog do andré kfouri (aqui)



Quero começar pelo final. Pelo final da coluna que Eduardo Tironi escreveu ontem aqui neste mesmo espaço: “Mas a solução mesmo vem da sociedade. Quanto mais evoluída, menos serão necessárias regras para inibir quebras de valores éticos”. Onde assino? Junto-me a Tironi na tentativa de argumentar que o que estamos vendo nas rodadas decisivas do Campeonato Brasileiro não é culpa da fórmula de disputa.

Celso Roth, técnico do Internacional, declarou numa recente entrevista que os campeonatos dos últimos anos têm sido marcados por um “entreguismo” preocupante nas rodadas finais. “Nós, que somos do meio, sabemos do que existe, do que é verdadeiro e do que é falso nesses jogos”, disse Roth, que entende que algo precisa mudar no sistema. Mas já vimos jogos caracterizados por um “conveniente desinteresse” em outros formatos, seja no momento da definição dos classificados ao mata-mata, seja na hora do rebaixamento. Ainda não foi concebida a fórmula que garante uma competição livre de manipulações. E provavelmente não será.

A ideia de marcar clássicos estaduais para as últimas rodadas, a princípio, parece interessante. Mas sua aplicação é problemática. Os principais times cariocas e paulistas, por exemplo, seriam obrigados a enfrentar seus maiores rivais nas seis últimas datas de cada turno, o que obviamente feriria o fundamento do sistema de pontos corridos – a igualdade de condições entre todos os participantes. Mais: mesmo supondo que jamais haverá facilitação num jogo entre adversários históricos (você aposta?), a medida não contempla o rebaixamento, sempre às voltas com placares misteriosos.

A questão maior não é impedir a manifestação dos desvios éticos de alguns dirigentes e atletas. Eles sempre encontrarão um caminho. O desafio, como escreveu Tironi, é nossa evolução como sociedade. Duvide de quem diz que o assunto não é assim tão sério. Os torcedores que não se envergonham de levar a um estádio uma faixa estimulando a entrega de um jogo, e prostituem sua “paixão” no processo, certamente consideram o futebol tão importante quanto o oxigênio. Acima de tudo, são cidadãos equivocados, influenciados pelos piores exemplos do país dos escândalos.

O Campeonato Brasileiro de futebol, com qualquer sistema de disputa, sempre poderá sofrer as consequências do que somos, de como pensamos, de como agimos e de nossa incapacidade de diferenciar certo e errado. De nossa vocação para vergar regras de conduta até elas se tornarem sugestões descartáveis. De nossa vontade irresistível de ser o maior malandro da sala. Times deveriam entrar em campo para jogar e vencer. E ponto.

O formato atual é vítima, não vilão. Não há fórmula eficaz contra defeito de caráter.

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