quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Torcedores em extinção

Quando, aos 5 anos de idade, fui levado por meu pai pela primeira vez ao Pacaembu, em jogo do qual me lembro bem dos dois gols de nosso 1 a 0 – o segundo tento foi anulado, tive o prazer de sentar defronte àquilo que mais olhei nos noventa minutos e que até hoje me recordo vivamente: as arquibancadas populares.

Do jogo e do adversário até lembro bem, mas não eram a principal novidade nem a principal atração da tarde.

Gritos, festa, papel picado, bandeiras de mastro, faixas, batucada, amor e devoção ao clube. Por mais que em minha tenra idade já acompanhasse meu time, não tinha como não ficar impressionado com aquilo, não tinha como não me apaixonar por aquilo, não tinha como não ter certeza que era ali onde escreveria toda minha história relacionada ao futebol.

E assim foi e ainda é, mais de vinte anos depois. Na arquibancada do Mário Alves Mendonça, Fortaleza ou Lanchão, Belo Horizonte, Rio, Curitiba, Goiânia e numa volta recente à capital paulista.

Nesse meio tempo, em vez de punir quem atenta contra a festa do futebol, os organizadores do esporte bretão covardemente optaram por generalizar o torcedor comum como vândalo, inepto a portar adereços de festa, restringindo seu direito de manifestação e conseqüentemente inibindo cantos e coreografias que seduzem novos amantes do futebol, que tornam realmente charmosas as tardes de domingo e que fazem valer a pena o martírio de acompanhar uma partida de futebol nas madrugadas do meio de semana.

E veja: desde criança optei por não seguir os passos da chamada zona de conforto – passos dados por meu pai apenas quando de minha estréia, torcedor de arquibancada que sempre fora também –, adotei as arquibancadas do Brasil como minha casa, escolhi pertencer à geral que apóia incondicionalmente o time, que assiste jogos em pé, lado a lado, focada num mesmo ideal. Voluntariamente.

Não falo em torcida organizada, falo em optar por ser parte da festa, integrar o espetáculo, ser mais um na multidão e mesmo assim ser protagonista do maior campeonato de futebol do mundo.

E tenho imenso apreço e respeito por quem fez, com outras cores e outras casas, a mesma escolha.

E me solidarizo com eles por também não mais levarem suas bandeiras e fogos, por não mais terem a liberdade de escolher sua manifestação, torcedores adstritos à repressão fascista de nossa liberdade de expressão, vítimas de um sistema que prefere criminalizar o torcedor e, em vez de debater e colocar em prática medidas de segurança eficazes, baniu dos estádios exatamente a parte da cultura popular, o elemento festivo de celebração.

É o mesmo Estado que hoje se locupleta escondido na dita modernização do futebol, a qual, dizem, justifica reformas sucessivas de estádios, construção de arenas com verbas públicas e encarecimento de preços de ingressos que, se não combatidos, em um futuro recente transformarão as praças desportivas em shoppings restritos a ricos, consumidores apenas, e não torcedores antes e acima de tudo.

É o fim da arquibancada que vemos logo adiante, o fim das festas de torcida, da cultura torcedora e da alegria do futebol.

Jornais desportivos de renome nacional já pesquisaram e constataram que apenas 1% dos brasileiros freqüenta estádios de futebol. Concomitantemente, informaram que de duas temporadas para cá o valor dos ingressos subiu de uma média nacional de R$ 10,00 para montantes que variam entre R$ 20,00 e R$ 40,00.

Mas aquele um em cada cem continuou lá. Pior: aquele um do povo, o torcedor popular de quem já tiraram o direito de festejar livremente, agora precisa fazer mágica em seu bolso para acompanhar um aumento de valores que não segue as tendências econômico-financeiras nacionais, mas apenas interesses próprios, elitistas, que usam a paixão desse 1/100 para sustentar más gestões, comissões, desvios, "modernizações"...

Torcedores que serão usados até que o futebol não seja mais o esporte do 1% devoto, mas dos 5% ricos brasileiros capazes de seguir e arcar com o aumento de preços que seguirá a padronização do futebol brasileiro aos moldes do triste e falido sistema europeu.

Não se trata de um devaneio pessimista: cada reforma por que passam nossos templos reduz setores populares e aumenta camarotes, cativas. O mesmo é visto em cada estádio novo, com mais setores de alto padrão, em detrimento das arquibancadas; assim também a cada vez que alguém diz que são obrigatórias poltronas em todo o campo, o que serve de trampolim para bilheterias.

Ao mesmo tempo, dirigentes se perpetuam nos cargos, continua a festa dos cambistas e a mídia faz seu apoio velado ao movimento elitista, quando opta por não divulgar a queda da violência no futebol e direciona os 99% que nunca foram a uma partida sequer a acreditar que a chance de assalto é de 100%, que torcedor popular é sinônimo de marginal, que uma gangue sanguinolenta o atropelará às barbas da polícia.

Assim se vende o novo modelo. Assim se exclui e marginaliza o popular, o verdadeiro fã do futebol, o cidadõa que fez desse esporte a paixão nacional.

Domingo, 24.10.2010, quando a Associação Nacional dos Torcedores fez sua primeira divulgação em estádios de São Paulo, constatamos que não precisaríamos ter perguntado, torcedor a torcedor, se alguém foi, um dia, questionado sobre o que acha do futebol atual e o que espera do futebol e dos estádios até a Copa de 2014.

Bastava um microfone no campo e ouviríamos de corinthianos e palmeirenses um uníssono não!

Não fomos questionados sobre não termos mais nossa festa, não nos perguntaram se queremos deixar de ver os jogos juntos e em pé, se gostamos de cantar e coreografar, não perguntaram o quão grande é o sacrifício para não perder um jogo que seja de nosso time e se sentimos violado nosso direito sócio-econômico de ser parte do espetáculo, de fazer o espetáculo e de perpetuar a cultura torcedora brasileira.

Daí a importância e a urgência de difundirmos os ideais da ANT, de massificar nosso movimento e de pleitear a representação popular nas decisões políticas, econômicas e estratégicas que dominam o futebol. Fiscalizar gastos públicos, frear a ganância de diretores, lutar pela redemocratização do esporte, participar da gestão e garantir a implementação de um sistema que assegure os direitos do torcedor, protagonista da história do futebol e cidadão eivado de direitos e garantias que devem sempre ser respeitadas.

Quem se identifica com essa necessidade, quem acha válida a luta da ANT, pode apoiar o movimento associando-se no www.torcedores.org e procurando o núcleo de sua cidade. Várias ações e matérias vêm sendo veiculadas em todo o Brasil. É a última chance: se permanecermos calados, nós, torcedores, acabaremos extintos pela elitização da Copa 2014...

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