sexta-feira, 30 de julho de 2010

sócrates - entrevista ao sintrajud

Confira a entrevista concedida por Sócrates ao Sintrajud-SP (Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário Federal do Estado de São Paulo), pouco antes do início da Copa do Mundo. (original aqui)

Como você está vendo a organização da Copa do Mundo aqui no Brasil daqui a quatro anos?

SócratesAqui no Brasil, ainda não há organização nenhuma, pelo que eu saiba. Na verdade, existe uma desorganização dirigida para que os investimentos que sejam alocados nas obras não passem por licitações, então estão protelando o máximo possível para que isso ocorra.

Você acha que é intencional?

É claro! Isso aconteceu no Pan-Americano, acontece sempre. Quanto mais demorado melhor, porque aí tudo é feito a toque de caixa, e a toque de caixa tem situação emergencial que vale a pena para desviar alguma coisa.

Você acha que a exclusão do Morumbi como um estádio da Copa tem a ver com isso?

Não tenho dúvida. Eles querem construir um outro estádio. Desde o começo estava na cara, criaram todo tipo de dificuldade. E acho que o São Paulo fez certo, fazer um investimento de 700 milhões no Morumbi? É mais fácil o São Paulo construir outro estádio.

Você acha que o interesse é mais econômico ou político?

É para-econômico. Não é nem econômico. Economicamente não poderíamos escolher Manaus em vez de Belém. Cuiabá como sede, onde eles vão ter que construir o estádio para depois ficar parado, Brasília a mesma coisa, Natal a mesma coisa. É não é interesse econômico. É desperdício de dinheiro. Desperdício econômico. É para-econômico, para desviar verba.

Você não vê o fato de o São Paulo ter encabeçado uma chapa de oposição na eleição do Clube dos 13 como um elemento para a exclusão?

Não, isso vem lá de fora. Todos os estádios vão ser reformados. Alguns com um custo absurdo. Deve ser a quinta ou sexta vez que fazem reforma no Maracanã nos últimos três anos. O Minerão também. Vão construir outro na Bahia. Entendeu? É pro dinheiro andar. Andando o dinheiro alguém tá ganhando. Seja quem constrói, quem administra. O único que não ganha é o povo.

Você sempre diz que atualmente o futebol tem mais força do que arte. Você acha que a Copa de 1982 foi um marco na consolidação do esporte como está hoje?

Não existe um divisor aí. O que ocorre é uma falta de adaptação do futebol com a evolução física dos atletas. A questão não é só filosófica, claro que isso faz parte do processo. Mas ela é muito mais dependente da questão física. Inclusive na minha tese de mestrado, seria nove contra nove, tirar dois jogadores de cada time. Quer dizer, você resgatar os espaços que tínhamos há anos atrás. Então vão ter que jogar. Hoje tem gente que se esconde. Você pega um back central da vida ai que não sai do lugar. A única coisa que ele faz é chutar a bola pra frente, pro lado, isso não é jogar futebol. Com nove contra nove, o back central vai ter que saber jogar. Não só ele, todos vão ter que saber jogar, porque a bola vai correr.

Na verdade o futebol é um dos poucos esportes que não se adaptou a essa evolução. Imagine uma prova de atletismo, 100 metros, hoje, com cronômetro manual... Iria dar empate para caramba. Ou 50 metros na piscina. Tem que se adaptar a isso. E futebol não mudou nada. Não quer mudar. Nem tecnologia se utiliza para se dirimir as dúvidas de arbitragem.

Você não acha que essa não adaptação beneficia maus jogadores, que mesmo não tendo tanto talento, mantêm contratos milionários?

Hoje, na verdade, se nivelou o futebol. Um ou outro jogador que se destaca, que tem mais técnica, mais talento. Na verdade, todo mundo privilegia o físico hoje e é isso que impera no futebol. Seja na seleção de Honduras, você comparar com a seleção da Inglaterra. Você vê as equipes que se classificaram, tem time que nunca passou para a segunda fase e tem um monte na segunda fase, tá tão igual.

Como foi a democracia corinthiana?

Uma sociedade que decidia tudo no voto e a maioria simples levava vantagem nas decisões, absolutamente democrático. O roupeiro tinha o mesmo peso de voto de um dirigente.

Como a direção do time reagiu? Não só a direção, mas os patrocinadores, o Leão quis dar uma pernada?

O Leão não dava pernada em ninguém, ele nunca votou ué. Um voto nulo, em branco. Se você não quer participar de uma sociedade você não vota e agüente a decisão da maioria. A direção participava, um voto era da direção do clube e não tinha patrocinador, nessa época não tinha essas coisas.

Esse foi um dos poucos momentos em que o futebol cumpriu um papel mais positivo politicamente?

Na verdade cumpriu um papel importante nesse processo de redemocratização, porque o processo corintiano começou dois anos antes da grande mobilização das Diretas Já! Acho que foi um fator importantíssimo na discussão da realidade política brasileira. Você está dentro de um meio extremamente popular, com uma linguagem que é acessível a todo mundo está discutindo uma coisa que há muito tempo ninguém ou muita gente jamais teve a possibilidade de efetuar, que era o voto. Foi importantíssimo. Igual a isso eu não conheço nada parecido no futebol.

Você acha que o futebol pode cumprir um papel mais progressivo?

Claro. E esse é o grande medo do sistema. Você imagina a Gaviões da Fiel politizada. Né!? Você tem mobilização já pronta, você tem palco, duas vezes por semana, para exercer o seu direito, a ação política, só falta a politização.

Falta organização política para os jogadores?

Falta consciência! Falta... Por isso o sistema deseduca esses caras. Em vez de educar, faz de tudo para o cara não adquirir uma consciência social, política, porque esse é o mais importante. Ele é mais ouvido que o Presidente da República, esse cara pode mudar o país. Uma das brigas que eu tenho é "por que não educar esse povo, se é obrigação do Estado educar todo mundo?". Pelo menos esse povo tem que ser educado. Agora mesmo, fui para a África do Sul, uma campanha pró-educação, inclusive com iniciativa da Fifa, com chancela da ONU, Educação Global, que é uma das metas do milênio, até 2015 pôr todas as crianças na escola. Então, no caso da Fifa, ponha primeiro os jogadores. (risos)

Você acha que o Estado deveria cumprir um papel mais importante na gestão do esporte?

É claro! Mas ninguém quer mexer muito nisso. Ninguém quer mexer, porque é um vespeiro. Mas deveria. Particularmente o futebol no Brasil é um negócio, como outro qualquer. Por que o Estado não tem controle sobre isso. Ele usa todos os símbolos nacionais, hino, bandeira, até a alma do brasileiro ele usa.

Você acha que o Estado deveria intervir para tentar segurar os jogadores no Brasil?

Já existe legislação para isso. O trabalho infantil ele é penalizado. Mas como você vai evitar que uma criança se transfira para outro país dentro das condições legais, quer dizer, arrumam emprego para os pais, os caras sempre fazem aquilo que precisa ser feito. Isso só vai ser educado quando tivermos consciência de que temos que valorizar a 'commodite' que temos em mão. Que é a qualidade do jogador brasileiro, o talento do jogador brasileiro. Em vez de vez vender o artista, tem que vender a obra dele. Quando a gente começar a vender a obra dele, a gente vai ter muito mais riqueza.

Um bom exemplo é o Ronaldo. O Ronaldo é um cara que vale ouro, que veio pra cá e está ganhando o mesmo que estava ganhando lá, ou mais.

Então é possível sim, mas é uma mudança de mentalidade. Na verdade o futebol brasileiro vende seu artista porque também é uma forma mais fácil de se manipular os recursos. Nem todo dinheiro que saí de lá chega aqui, no meio do caminho tem muita gente intermediária.

2 comentários:

  1. Essa entrevista do Sócrates da pano para muitas discussões: Estádios para copa, Democracia corinthiana, formação dos jogadores, etc.
    Vou comentar apenas sobre o estádio de São Paulo para abrigar a copa do mundo. Sempre tivemos na história do Corinthians a eterna promessa de construção de um estádio. Com a chegada da copa começaram a pipocar projetos em tudo quanto é lugar. Pirituba, Guarulhos, terreno do playcenter,concessão do Pacaembu, etc.
    O que aconteceria com o estádio do Pacaembu caso aprovassem a construção de uma nova arena para o Corinthians? O estádio com a melhor localização, acessibilidade e que faz parte da história da cidade sendo relegado a campeonatos amadores. Pior, dando prejuízo aos cofres público pela manutenção pesada de um equipamento deste porte.
    Como o Sócrates comentou, querem fazer isso sem organização nenhuma para no fim das contas gastar 600 milhoes em algum lugar satisfazendo interesse de empreiteras, especuladores imobiliários,etc. O fato que demonstra isso, é que mesmo o Corinthians possuindo um terreno na zona Leste, aparecem outros locais para a construção do "nosso" estádio. Geralmente sempre em locais de péssimo acesso onde o poder público também terá que se virar para criar a acessibilidade. Por causa dos horários, mesmo com uma localização privilegiada, muitos torcedores, nos últimos 15 minutos de jogo, são obrigados a sair do Pacaembu para poder pegar condução. Imagine em um local afastado.
    Sobram os comentários gerais,“não importa onde seja construído desde que seja nosso” ou “o Pacaembu nunca será nosso por que investiríamos num patrimônio público ?” A falta de esclarecimento e vontade política para resolver esse impasse infelizmente nos reservará alguma proposta que no fim das contas atenderá apenas a algum interesse econômico e não será fruto de uma discussão sobre o que é bom para a cidade e o Corinthians.

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  2. Concordo, Joaci

    vamos deixar de lado essa papagaiada de estádio para a copa. Se elas fazem tanta questão, que passem batom e corram atrás...

    nosso caso é outro, eu concordo demais quando ouço o andres falar que um time centenário tão grande que nunca teve estádio não pode, de repente, decidir que isso tem que aparecer de uma hora para outra

    e é exatamente por isso que essas "arenas" fora de mão (sim, até itaquera é fora de mão, se se considerar que o público de hoje, com o atual valor de ingressos - que não vai baixar com outro estádio, não é mais 100% povão... aliás é 25% povão: parte da bancada e tobogã, e só) não convencem como bom negócio

    o licenciamento de qualquer obra de grande porte demanda investimentos em melhorias de entorno: se considerarmos as vias de acesso e a possibilidade de reformas, o pacaembu é o único que permite 4 roteiros de chegada, e não somente um ou2

    outra coisa é a capacidade: é certo que as meninas tomam um baita preju pq tem cerca de 50mil lugares livres por jogo; as porcas também levam no bolso pelos 10mil vazios por jogo no palestra

    e nossa média de público não é de 36mil (pacaembu lotado), mas de 26, e o aluguel do pacaembu hoje, em valores absolutos e considerando nossa renda por jogo, é mais barato alugado do que a manutenção do palestra

    é só pensar que num jogo com meio estádio vazio, arcamos, de qualquer forma, com a infra-estrutura do estádio cheio: polícia, ambulância, limpeza, médicos, conservação de entorno, vandalismo etc

    ou seja, não é rentável

    e eu em nada me envergonho de não ter estádio; ao contrário, prefiro ter uma equipe que jogue com hombridade, raça, que se dedique em qualquer lugar, a perder como covarde e buscar consolo em algo como "pelo menos tenho estádio"

    isso é coisa de rosadinho da vila sônia

    e nesse foco o pessoal da prefeitura, que ficou cego na comissão que vai ganhar com um novo estádio, devia novamente pensar no pacaembu como o elefante branco que é hoje para a cidade. se não fosse nossos aluguéis, o prejuizo mensal seria ainda maior

    sem nosso clube, pior

    e trata-se de bem tombado, não podem demolir para nada, sequer podem alterar a fachada

    então que coloquem o valor do arrendamento num preço de mercado, pq também não podemos pagar o valor de um estádio num bem provisório

    e respeitem a história do pacaembu, e preservem a municipalidade paulistana da perda de um monumento histórico, preservem nossa casa e nos poupem nossos bolsos de mais comissões e superfaturamentos!

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